Os filmes de uma vida – parte II

Cena do filme "Transamerica"

Olhando novamente a minha lista de filmes locados na Cartoon Vídeo (no último post esqueci de dizer, mas ela é de jan de 2006 até julho de 2011, antes disso, eu frequentava outra locadora), eis que paro no dia 10/02/2007. Um dia após o aniversário da minha mãe querida. Dois filmes peguei neste dia: Coisas de Família (Fathers and Sons, EUA, 2005), do qual eu não lembro de nada, nem assistindo ao trailer de novo. Com certeza é um filme sem importância, os atores são desconhecidos e sabe lá Deus o motivo por qual eu o assisti (ou não o assisti?). Outro filme deste mesmo dia e que valeu a pena cada minuto da minha vida (já vi 4 vezes) é o fantástico Transamerica (EUA, 2005, dir. Duncan Tucker). Com a estupenda interpretação da atriz Felicity Huffman (da famosa série Desperate Housewives, ela foi indicada ao Oscar e ganhou um Globo de Ouro por Transamerica), que faz o papel de Bree, um transexual decidido a fazer uma operação de troca de sexo. Prestes a realizar sua cirurgia, ele descobre que Toby (Kevin Zegers), um jovem rebelde e metido em encrencas de todo o tipo, preso em Nova York, é seu filho, fruto de um relacionamento antigo com uma moça que já faleceu. Mesmo chocada, resolve ir ao encontro dele, fingindo ser uma missionária cristã que tenta ajudá-lo. É aí que começa uma viagem em que os dois vão se descobrir e enfrentar seus fantasmas. Quer coisa mais louca que descobrir que tem um filho crescido,  sendo que você é transexual? Ou descobrir que seu pai – que você nunca viu – é a missionária que te aconselha mas que, na verdade, não é missionária e nem mulher? Esse filme é um nó. É um buraco com várias feridas. Um tapa na cara dos pré-conceitos e nos faz refletir sobre o conceito de família. Além disso, é formidável na maneira como lida com o tema da identidade, da busca pelo “eu”, que independente se ser hetero ou homo ou trans ou seja lá o que for, é algo que todos nós buscamos (ou tentamos) a vida toda. Esse filme merece ser inserido na lista dos filmes em que chorei. Porque eu chorei bastante, apesar de ser um filme com humor ácido. Chorei na cena em que ela chora, desmorona. Senti-me comovida com sua coragem e bondade. Bree é uma personagem e tanto. Muitos pais heteros não fariam por seus filhos o que ela fez pelo dela. Muitos não fariam por si mesmos o que ela fez por ela. Muitas mulheres não são tão femininas e gentis como ela.  Mesmo tendo que lutar com uma dor tão forte e um dilema tão profundo como o da troca de sexo, enfrentar todos os preconceitos da sociedade, tomar um milhão de hormônios para a voz, os seios e os pêlos parecerem cor-de-rosa, usar um quilo de maquiagem num rosto de poros masculinos, esconder o que é incômodo e indesejado, ainda teve a elegância certa e justa para enfrentar tudo e todos (inclusive sua família louca e, de certa forma, comovente) para ajudar o filho loser e perdido. Os bons valores de Bree contrastam o tempo todo com os (não) valores do filho e de uma sociedade em que todos são imperfeitos. Uma desperate housewive de fazer inveja a qualquer dona de casa tradicional e medrosa.

Engraçado, pois ambos os filmes locados neste dia tratam de assuntos de família. Não importa a nacionalidade, classe social ou opção sexual, todas se assemelham em uma coisa: filhos trazem problemas e alegrias e mães e pais são incansáveis e falíveis. O que importa é saber lidar com o passado e ter a coragem para seguir em frente. Heteros ou homos, isso tanto faz.

Assista sem preconceituosos por perto:

Sobre Cinema sem blábláblá

Este não é um Blog sobre novidades. É um blog sobre os filmes e a vida. Não tem uma ordem, uma regra ou vários editores especialistas em cinema. Tem uma grande vontade de falar sobre os filmes e seus contextos. Porque melhor que os filmes de cinema, são as conversas sobre eles. ;-)
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