“Boa é a vida, mas melhor é o vinho. O amor é bom, mas é melhor o sono.” Fernando Pessoa
“Um dos melhores orgasmos que tive na vida foi com uma garrafa de vinho”. Não, esta não é uma citação minha. Poderia ser, mas é da minha prima Gil Vesolli, sommelier renomada, ultracriativa, revolucionária, bem humorada, que sofre de sincericídio (essa é ótima), bonita, sexy e dona do blog quasesommeliere.blogspot.com. Ela é ótima. Mora em Aracaju. Mas antes morava em B.H. E antes em Palmas/PR (cidade muito pequena para uma mente tão grande). Pedi para que ela me descrevesse exatamente como é beber um bom vinho, para que eu pudesse fazer um paralelo com cinema. Não sei por que, mas acho que ambas as experiências se parecem. Lendo seu texto, que vocês podem conferir aqui na íntegra , veio à mente os melhores filmes que já vi, e como ela fala do vinho Amarone Masi Costasera 2006, que escolheu para este texto, um bom filme também causa arrepios e sensações indescritíveis. Todo filme tem um gosto, uma cor, um aroma.
Ela diz que antes de dar uma aula sobre vinhos, abre as garrafas com antecedência de algumas horas. Como parte do ritual de cinéfilos, também é comum pegar o filme na locadora e ler cuidadosamente a sinopse, entrar na internet para ler sobre ele, “preparar o sofá”, desligar o telefone…tudo antes de apertar o play. Só não é tão chique.
Ela diz que muitos vinhos já não a surpreendem, que abre-os e prova-os por pura obrigação. O mesmo acontece com certos filmes, que a gente acaba assistindo porque todo mundo assistiu ou para ter uma opinião formada sobre ele, ou porque é uma vergonha não ter assistido (o que dizer no bar, no café ou na mesa redonda quando te perguntarem???). Aí ela continua: “Mas nesse dia tudo foi diferente. Ansiei pelo vinho, que nunca havia provado e ainda estava na dúvida em relação à harmonização. Alinhei os vinhos no balcão da copa do restaurante, escrevi seus nomes, sobrenomes e datas de nascimento no meu bloco de anotações. Primeiro vinho na taça, provei, anotei as impressões, parti para o segundo e depois para Ele.” Notem que “Ele” está com letra maiúscula, pois é uma santidade. A gente faz isso também com filmes. Não sei vocês, mas se pego cinco filmes para ver, por exemplo, deixo o melhor por último. Quero ficar com a sensação causada por ele, quero lembrar só dele e de nenhum outro mais. Quero que ele aplaque qualquer sensação de descontentamento dos anteriores. Para os amantes de cinema, não só o filme em si é uma santidade, mas o diretor também, quando é bom. É uma espécie de devoção, de fidelidade.
Agora, a prova: “Logo ao colocá-lo na taça seus aromas partiram em fuga até meu nariz e corei feito um tomate. Levei a taça ao nariz e meu coração ficou acelerado, faltou ar, as pernas tremeram e gemi. Olhei para o lado como quem é pega em flagrante. Umcopeiro com olhos de surpresa virou-se espantado. Mais do que depressa, agarrei a taça, a garrafa e corri para um lugar mais reservado. Girei o vinho negro e encorpado, e mais aromas surgiram. La petite mort! Ao ser levado à boca, desejei a eternidade fixada naquele instante. Perfeição, apenas isso. O vinho era másculo, carnudo, com sabores que se sobrepunham, confundiam, marcavam como unha na carne. Ao mesmo tempo ele era reconfortante, elegante, macio”, meu Deus, que inveja! Agora ficou difícil competir com todas essas sensações inebriantes. Mas vou tentar. Quando se começa a assistir a um bom filme, a um filme “Amarone Masi Costasera”, a gente sai da vida real. Eu, pelo menos, assumo outro papel, e dependendo das cenas e do enredo, também começo a corar ou empalidecer. Não há a figura do copeiro, mas há as figuras da casa em que se está (marido, amigos, pai, mãe, irmãos, cachorros, gatos) que poderiam evaporar naquele momento que não faria a mínima diferença. É cruel, eu sei, mas é verdade. Quando vejo um bom filme, quero paz. Quero intimidade com ele. Como o copeiro, as pessoas também me olham com olhos de surpresa, porque não economizo expressões corporais. A almofada no colo, sofre. Assim como os aromas, que vão surgindo na taça, as emoções começam a aparecer no coração. Bem fortes, hiperativas, insistentes. Quando percebo o conflito do personagem, é como se o filme se abrisse para mim e exalasse seu aroma. Quando assisti a filmes dos meus diretores preferidos, como David Lynch, Michael Haneke, Lars Von Trier, Ingmar Bergman, François Truffaut, Wim Wenders, Eduardo Coutinho e muitos outros que aqui não cabem, eu me senti assim. É como uma abertura em nosso pequeno mundo, uma folha rasgada, um buraco de fechadura que queremos olhar. Como o vinho, desejei sim parar o tempo. Chorar até acabar as lágrimas ou rir até morrer. Ou simplesmente pensar. Na garganta, o nó. Na mente, é como uma dose de álcool. Em cinema é difícil chegar à perfeição. Um filme não tem um barril de madeira para passar um tempo ou não depende da terra e das chuvas. Mas alguns são quase perfeitos. E os sentimentos que provocam, muitas vezes dúbios, são de matar. Alguns são como navalhas, outros, como algodão doce. E ela finaliza: “Foi difícil abandonar a garrafa e voltar à rotina de vinhos normais, comuns ou tediosos”, sim prima, é difícil se libertar dos personagens, da trilha, das melhores cenas. Elas acompanham você por dias. Ficam batendo à porta do seu coração, querendo uma prorrogação, implorando para não serem esquecidas. Aí, depois de um filme emotivo e maravilhoso, os outros filmes parecem ficar no limbo. E é tão importante que eles existam, os tediosos, para que a gente nunca esqueça do corpo e da cor dos especiais, que tingem nossas vidas. Santé!
Para ilustrar, uma sugestão bem encorpada. “Paris,Texas”, de Wim Wenders. Este é um dos melhores filmes da minha “adega”.
Obrigada pela publicação, querida. Adorei seu texto! Tenho feito o possível para assistir aos filmes que voce recomenda. Mil beijos.