1 lugar para fugir antes de morrer

Cena do filme "A rosa púrpura do Cairo", 1985, de Woody Allen.

Cena do filme “A Rosa Púrpura do Cairo”, 1985, de Woody Allen.

Fugir é um verbo irregular que significa afastar-se, retirar-se, escapar a algo ou a alguém. Para a psicologia, é um mecanismo de defesa. Para a música, segundo a Wikipédia, fuga é um estilo de composição contrapontista, polifônica e imitativa, de um tema principal, com sua origem na música barroca. Em desenho de perspectiva, ponto de fuga é um objeto do plano de visão, que representa a interseção aparente de duas ou mais retas paralelas, segundo um observador fixo e situa-se na linha do horizonte. Para a psiquiatria, está relacionada a uma série de patologias. Para a maioria das pessoas é uma coisa errada, vergonhosa e que não deve ser feita, porque devemos ser corajosos, enfrentar os problemas e obstáculos e não fugir deles. Fugir de bandido, cachorro louco e furacões até vai, mas das coisas da vida, aí não pode.

É só a gente comentar algo como “vou embora deste lugar” e já vem alguém dizendo, com ares de profeta das montanhas “ah, você está fugindo” ou “não é assim que se resolvem os problemas, eles vão junto com você” e vários clichês desse tipo. Eu acho que todo mundo deveria fugir alguma vez na vida. De qualquer coisa. A fuga, além de necessária, muda o lugar das coisas, protege, desorganiza, mascara, tudo vira um caos, mas muitas vezes, se pensarmos bem em algumas situações, o melhor a se fazer é “nada”. Eu desconfio de quem enfrenta tudo e sabe sempre o que fazer.

Pontos de fuga na obra "A Última Ceia", de Leonardo Da Vinci.

Pontos de fuga na obra “A Última Ceia”, de Leonardo Da Vinci.

Há um tipo de fuga que não implica em deixar de pagar as contas ou esquecer entes queridos morrendo de fome. Às vezes é preciso fugir um pouquinho todos os dias de outra forma, procurando em nossa imaginação um lugar que é só nosso, onde podemos ser nós mesmos e desenhar um cenário que só a gente conheça, um produto do nosso desejo mais legítimo.

Todos deveriam experimentar esse lugar. Um lugar de deleite. Onde não há censura ou perigo, medo ou dúvida. Um lugar que, por ser imaginário e termos certeza disso, não há cobranças, só direitos. Uma vez nele, podemos transgredir um pouco. E depois, de volta à “vida real” onde os problemas e verdades ainda nos atormentam, a gente consegue seguir em frente. Ou não, como diria Gilberto Gil, autor daquela música famosa chamada “Vamos Fugir”. Os céticos vão dizer “ah, mas isso não é real”. Sim, é tão real quanto o pão com geléia que a gente come de manhã ou a dor de cabeça que nossos problemas nos trazem. Acredito que tudo que a gente pode sentir é real.

Cena do filme "Paris, Texas"

Cena do filme “Paris, Texas”, de Wim Wenders

Esses lugares não precisam ser exatamente praias paradisíacas ou aqueles círculos de luz imaginários que gurus da autoajuda sugerem. E também não é preciso entrar numa escola de meditação transcendental e comprar uma passagem pra Índia. Lugares podem ser pessoas. Podem ser um tempo. Podem ser coisas, obras de arte, filmes, brincadeiras, jogos, músicas, orações, cheiros. Podem ser personagens, histórias, situações, mas precisam ter duas coisas básicas e vitais: a nossa essência e a nossa (verdadeira) vontade. Quem consegue encontrar este lugar, tão íntimo e único, pode ter uma das experiências mais fantásticas da vida. Porque por mais estranho que pareça, a fuga pode ser também uma busca. Quanto tempo a gente pode ficar neste “lugar”? Quantas vezes será que podemos visitá-lo? Acho que não há regras.

Ninguém deveria ser chamado de louco ou covarde por experimentar uma fuga a um lugar como esse. Porque é nele, só nele, que acontece o que realmente importa: a gente enxerga a si mesmo. E pra isso, é preciso ter muita coragem.

Sugiro estes quatro filmes, sobre pessoas “em fuga”.

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985), de Woody Allen. Com Mia Farrow, que faz o papel de  uma garçonete que sustenta o marido bêbado, desempregado, violento e grosseiro e que costuma fugir da realidade indo ao cinema e assistindo a várias sessões de seus filmes preferidos, até que, ao assistir pela quinta vez ao filme “A Rosa Púrpura do Cairo”, ela tem uma grande surpresa.

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, 2006), de  Guillermo del Toro. Esse é pra quem tem coração e estômago fortes. Na Espanha de 1944, oficialmente a Guerra Civil já terminou, mas um grupo de rebeldes ainda luta nas montanhas ao norte de Navarra. Ofelia, uma menina de 10 anos, muda-se para a região com sua mãe e seu novo padrasto, um oficial fascista que trata os guerrilheiros com requintes de crueldade. Solitária e com medo, a menina descobre um mundo de fantasias onde conversa com um Fauno e isso muda o rumo de sua história.

A Garota Ideal (Lars and the Real Girl, 2007), de Craig Gillespie. Com o talentoso (e lindo) Ryan Gosling, que faz o papel de um homem tímido e introvertido, que mora no mesmo terreno que seu irmão e cunhada. Um belo dia ele se apaixona por uma mulher pela internet e a insere em sua vida familiar e social. Só que esta mulher é uma boneca inflável. Uma lição de tolerância que não existe na vida real.

Paris, Texas (Paris, Texas, 1984), de Wim Wenders. Aclamado pela crítica e um dos filmes mais lindos que eu já vi, conta a história de Travis, um andarilho desaparecido há 4 anos, que é encontrado sem memória por seu irmão em um deserto ao sul dos EUA. Aos poucos ele vai  recordando partes de sua vida. Com o irmão e cunhada vive também Alex, filho de Travis, que foi abandonado pela mãe. Travis e Alex vão construindo uma grande amizade e um desejo enorme de encontrar a mãe. Uma fuga seguida de uma busca. Na vida real, geralmente é assim.

Agora fiquem com uma fuga de Mozart, que é um lugar e tanto.;-)

Publicado em Recomendados | Marcado com , , , | 1 Comentário

Geração X-Tudo

Cena do filme "Clube dos Cinco", 1985.

Cena do filme “Clube dos Cinco”, 1985.

Depois que estudiosos enquadraram as pessoas em “gerações”, tudo ficou mais fácil de entender. E também de etiquetar, carimbar, separar os indivíduos. Afinal, tudo no mundo tem que estar dentro de uma categoria, não é mesmo? É super útil. Minha vida mudou depois de saber que sou da “geração X”, que, segundo a Wikipédia, o termo foi inventado pelo fotógrafo da Magnum, Robert Capa, em 1950. Depois disso houveram outras conclusões e estudos, mas pra simplificar, é a geração nascida aproximadamente entre os anos 1960 até o final dos anos 1970. Quem nasceu de 1980 em diante, é a tal geração Y, tão falada, tão polêmica, rotulada de mimadinha, imediatista e antenada que ficou até chata. Injustiça. Nem todos são assim. O que dá certa inveja é a “leveza” e desapego com que tratam certos assuntos. É a geração do “tô nem aí” e “amanhã arrumo coisa melhor”. Parece tudo tão simples pra eles…como um misto-quente.

Li nas internete que o termo “X” se deve a um estudo realizado para classificar a geração de adolescentes da época. Não se sabe ao certo se o “X” se refere à expressão em inglês “X rated” – que tem a ver com atos e produtos pornográficos – ou se a referência é ao “X” como uma incógnita. Acho que tem mais a ver com pornografia. rsrs

Dizem também que esta geração é formada por pessoas que são mais sensíveis que a anterior, mais maduras, que romperam com muitas coisas, souberam conviver melhor com o sexo oposto, lutaram por seus direitos, desprenderam-se de laços familiares sufocantes e buscaram a liberdade também na arte, na música e na poesia. E deram com os burros n’água muitas vezes e isso se repete até hoje. O ser humano é tudo igual em muitas coisas e isso não depende de época.

Alguns dizem que somos mal resolvidos. Acho que agora entendo o tal do “X” de enigmático, que é uma palavra linda pra disfarçar outra: paranóico. Eu acho que somos meio “noiados” mesmo, cheios de preocupações e culpas que não nos levam a nada. Não nos damos bem com a geração anterior e conflitamos com a nova. Adoramos dizer que batalhamos para chegar onde chegamos e o quanto “sofremos”. Adoramos falar que a geração Y foi criada ~tomando Toddynho na cama~ (eu vivo dizendo isso). Adoramos gente da nossa idade, vejam só. Somos passionais, maternais, muito apegados a coisas e pessoas. Somos “obedientes” e respeitamos relações hierárquicas, mas por dentro estamos querendo mandar tudo pra p.q.p. Dizem que isso pode dar câncer. Somos expert em obsessões, manias e carências. Queremos muita coisa dentro do sanduíche, mas temos que ser “responsáveis”.

Como não nascemos “conectados”, vivemos a transição passando pelo deslumbramento e pelo medo das novas tecnologias. E adoramos falar que vimos tudo acontecer. Um “piscar de olhos” e tcharam! Tudo estava em rede. E a gente ali, vivendo tudo intensamente, a loucura da evolução da internet e da morte de várias coisas. Morte da fita k-7, das conversas no telefone fixo, morte do vinil, morte da arte, morte da bezerra.

Cena do filme "Mulher Nota 1.000"

Cena do filme “Mulher Nota 1.000″

Mas a fase cor-de-rosa existiu. Dentro da geração X há os que viveram os anos 80 e 90 na sua adolescência e juventude. Estas décadas foram um presente, de certa forma. Tudo era meio exagerado e meio inocente, a música era ótima (The Cure, The Smiths, New Order, Madonna, Michael Jackson, Cyndi Lauper, só pra citar alguns) e a gente não tinha essa coisa de enquadrar as pessoas em minorias. As meninas eram loucas por George Michael, por exemplo, e nem desconfiavam que ele era gay! Não se falava nisso. Não como hoje.

Os relacionamentos amorosos eram um show à parte. Existia o “pedir em namoro”, o “pedir um beijo”. A gente sofria mesmo, era uma coisa de louco. As festinhas de garagem eram regadas à refrigerante e salgadinhos Elma Chips e tinha dança da vassoura. Os mais velhos bebiam escondido. Os pais (da geração baby boomers) eram mais rigorosos e a criatividade tinha que ser usada até para escapar de casa no meio da noite. Foi aí que a gente aprendeu a técnica de chegar em casa de costas. Afinal, a gente tinha que dar nossos pulinhos pra sobreviver. Muita emoção.

"A Garota de Rosa Shocking", de John Hugues.

“A Garota de Rosa Shocking”, de John Hugues.

Não havia TV a cabo, nem internet. Então, a gente assistia a muitos filmes na Sessão da Tarde ou no Supercine, Corujão, essas coisas. E os filmes, mesmo sendo em sua maioria norte-americanos, refletiam muito os jovens dos anos 80. Pelo menos em sua essência. Segue uma pequena seleção de “clássicos” da época da calça bag e de Like a Virgin. Muitos deles são de John Hughes, o diretor americano que marcou uma geração com filmes de temáticas jovens.

Essa seleção é especialmente para aqueles que hoje não se contentam com um simples cheeseburguer do McDonald’s, querem mesmo é comer um X-Tudo bem gordurento, exagerado, pra se esbaldar e depois ficar morrendo de culpa. Senão não tem graça.

Porky’s, 1982, de  Bob Clark. (o “American Pie” da época).

Karate Kid, 1984, de John G. Avildsen. (dispensa apresentações)

Gatinhas e Gatões, 1984, de John Hughes (garota gosta de garoto que não gosta dela e tem outro garotinho chato e inconveniente que é apaixonado por ela. o mundo mudou pouco)

Admiradora Secreta, 1985, de David Greenwalt. (loira burra popular X morena inteligente e amiga do menino que é apaixonado pela loira).

Mulher nota 1.000,  1985, de John Hughes. (nerds em busca da mulher perfeita. Kelly LeBrock, linda. Acho que até hoje tem homem que pensa nela…)

Clube dos Cinco, 1985, de John Hughes. (clássico dos clássicos da época, jovens “rebeldes” recebem castigo na escola)

Procura-se Susan Desesperadamente, 1985, de Susan Seidelman. (é, tem a Madonna, bem na época em que Like a Virgin estava quase estourando)

Curtindo a Vida Adoidado, 1986, de John Hughes. (Ahh, todos queriam ser como Ferris Bueller).

A Garota de Rosa Shocking1986de John Hugues. (Foi o primeiro blockbuster deste diretor. Menina apaixonada por um menino rico e que tinha um amigo apaixonado por ela. Elenco sensacional e trilha sonora idem, confira aqui.)

Conta Comigo, 1986, de Rob Reiner. (drama, elenco pré-adolescente)

Labirinto – A Magia do Tempo, 1986, de Jim Henson. (fantasioso e romântico, com David Bowie)

Fiquem agora com Thieves Like Us, de New Order. Porque a gente tem bom gosto musical desde aquela época, aponta estudo. ;-)

Publicado em Amor, anos 80, Recomendados | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

A firma como ela é

Cena do filme Office Space.

Cena do filme Office Space, de 1999.

Relutei em fazer um post com temas corporativos, mas não resisti. Essa vida que a gente leva na firma precisa ser expressada de alguma forma, precisa ser levada a público, compartilhada com o mundo lá fora, com playboys ou profissionais liberais ou donas de casa ou qualquer que seja a pessoa de pouca sorte que não faça parte deste maravilhoso mundo que não é de Marlboro. São dias tão intensos de trabalho e prazer, estresse e fúria e entre mortos e feridos, todo mundo está lá no dia seguinte com cara de bolinha de novo pra garantir um holerite decente no fim do mês. O cinema já produziu alguns filmes muito bons sobre este tema. Segue uma lista com alguns que recomendo. Procurei histórias que mostram aspectos do cotidiano de forma cômica, exagerada ou trágica. Quem não faz parte deste mundinho cheio de códigos de conduta talvez não entenderá muito bem alguns contextos mas os pobres mortais que fazem podem ver como a arte imita a firma e relaxar um pouco. Antes de matar seu chefe, colega ou a impressora, assista.

Como Enlouquecer seu Chefe (Office Space, 1999), de Mike Judge.Cult movie, uma das melhores comédias que eu já vi. Tem uma cena com uma impressora que é simplesmente fantástica e tem até paródia. (O povo da T.I. vai adorar este filme, rsrs)

O que Você Faria? (El Método, 2005), de Marcelo Pineyro - Sete executivos disputam uma única vaga em uma empresa e o filme se passa todo em uma sala onde começa uma espécie de jogo e muito “sangue no zóio”.

O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, 2006), de David Frankel - este é para quem trabalha numa empresa com muito glamour, rsrs. Vai fazer você achar sua chefe uma santa.

The Office, série de humor de TV exibida pela NBC, criada por Ricky Gervais, Greg Daniels e Stephen Merchant, adaptada de uma série britânica de mesmo nome. Ou pode ser uma série britânica que foi adaptada para os americanos, como preferir, não vamos fazer disso uma reunião. É uma overdose de escritório num humor impagável, as duas versões são boas, cada uma com seu típico humor.

O Corte (Le Couperet, 2005), de Costa-Gavras. Adaptado de um livro, com o excelente ator Bruno Davert como protagonista, é um filme de tirar o fôlego. Um cara desempregado simplesmente sai matando todos que têm a sua profissão na cidade, para que ele consiga uma vaga. Ixi, tô dando ideia…

Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960), de Billy Wilder. Um puxa-saco resolve agradar os chefes e empresta o apartamento para encontros com a mulherada. Só podia dar confusão. Um clássico.

Termino com a música do Tim Maia, dizendo o que ninguém tem coragem de admitir: O que eu quero?/Sossego.

Publicado em escritório, Filmes bons, Recomendados, Trabalho | Marcado com , , | Deixe um comentário

Cego, surdo e engraçado

Pintura de Edward Hopper.

Pintura de Edward Hopper.

Nunca ouvi tanta gente falando de um filme do Haneke como agora, sobre sua obra mais  recente, Amour (Michael Haneke, 2012), que concorre ao Oscar deste ano e por isso até a “massa” está comentando. Eu vi e não achei tudo isso. Não é meu Haneke preferido (e ele é meu preferido, depois de David Lynch) e está longe de ser porque pra mim faltou a ousadia peculiar que o diretor sempre coloca, aquela sensação de estranhamento e dúvida que acompanha suas histórias. Vou receber uma enxovalhada de críticas, mas tudo bem. O ódio é primo do amor, não? Se eu fosse mais spoiler criticaria ainda uma cena do final em que ~todo mundo se chocou~, mas não farei isso assim, de graça. Acho que as pessoas se comovem demais (ou querem parecer comovidas) com um tipo de amor convencionado, aquele que dura mil anos na tristeza ou na alegria, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza, que carrega o sofrimento. A visão de amor é geralmente reduzida a duas coisas: a uma paixão avassaladora à primeira vista (que hoje está ~super~na moda) ou à imagem daquele casal de velhinhos contemplando juntos a linha do horizonte. Tudo bem, é uma coisa linda, mas há várias outras formas de amar e de viver um grande amor, inclusive, dentro do próprio amor de muitos anos de convívio.

Tentar definir o amor é reduzi-lo, então vou parar por aí. Vou citar alguns filmes que mais me marcaram dentro deste tema e que são, para mim, histórias de amor intensas, bonitas e que fazem a gente ampliar nossa cegueira, ops, visão. Começo com o amor construído, descoberto e sensível de O Despertar de uma Paixão (John Curran, 2006), sim, sei que o nome nacional é péssimo. O nome original é The Painted Veil. Baseado no romance homônimo de William Somerset Maugham, com os excelentes Edward Norton e Naomi Watts (meus atores prediletos ;-) ) é, de longe, meu “filme de amor” preferido. É um amor que começa aristocrático, passa pela traição e depois cresce na admiração. Com uma trilha sonora de tirar o fôlego, uma história dramática em tempos de cólera, se passa em Guilin, região chinesa de Guangxi. Mostra como um contexto pode transformar o que sentimos. O mais incrível deste filme é que cada detalhe desta transformação de amor é cuidadosamente revelado em cenas e diálogos sutis, para quem observa com o coração. É de chorar três dias.

Cena do Filme The Painted Veil.

Cena do Filme The Painted Veil.

Um filme que não canso de assistir é Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2003). Esta história de amor é daquelas que duram poucos dias, mas ficam eternizadas na mente. Duas pessoas solitárias que encontram uma na outra um mundo paralelo, um lugar para entregar seus desertos. Aquele amor que parece com amizade, aparentemente calmo, que a gente fica torcendo para “acontecer algo”. E acontece tudo, dentro do possível.

As Pontes de Madison (Clint Eastwood, 1995), baseado num romanceé um filme sem pieguices. Poderia ser um clichê mal feito, mas é tão sincero, tão honesto, que simplesmente nos colocamos no lugar dos personagens. Uma dona de casa que mora no meio do nada e que de repente conhece um fotógrafo e ai, meu Deus. Um amor de tirar o fôlego, que dura poucos dias e é amor de decisão. Bom, e qual amor não é?

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Michel Gondry, 2004) não é um filme que me emocionou tanto, mas a ideia é fantástica e original e a história é construída de uma forma genial. Imagine se você pudesse, a partir de uma máquina, apagar de sua memória a pessoa que ama e que não ama você? Ou apagar um amor que te magoou e começar de novo sem a lembrança do passado? O casal é formado pelos atores Jim Carrey e Kate Winslet, excelentes nos papéis.

Melhor é Impossível (James L. Brooks, 1997) é um filme obrigatório. Como não amar um obsessivo-compulsivo interpretado por Jack Nicholson e que escolhe só as calçadas brancas para pisar? É o clássico da recusa do amor até que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E a Helen Hunt tá linda.

Sobre o amor gay, recomendo De Repente, Califórnia (Jonah Markowitz, 2007). Sincero, triste, delicado. Em meio a problemas familiares, um rapaz descobre sua sexualidade e os conflitos que vêm com ela, num cenário de praia e muito surf. É um filme que vai muito além de Brokeback Mountain.

E para tocar no reino das comédias românticas, pra ninguém dizer que eu só falo de dramas, Alguém Tem que Ceder (Nancy Meyers, 2003) é um clássico moderno deste gênero. Um roteiro impecável e atuações ótimas de Jack Nicholson e Diane Keaton, que todo mundo deveria assistir. Fala de clichês de uma forma leve e divertida.

Esses dias li um texto que dizia que o amor também nasce do encontro entre almas inquietas com o mundo a sua volta. Amores de revolução são assim, os que fazem o mundo mudar e se hoje estamos aqui, vivos e lendo coisas na internet, é porque várias destas almas inquietas se apaixonaram e prepararam o terreno pra gente. Um dia escrevo um post só sobre filmes de amor assim, “revolucionários”.

E pra provar que o amor tem tudo a ver com humor, amizade e é muito mais gostoso quando a gente encontra alguém que nos faz rir, termino com esta cena memorável do filme Harry e Sally – Feitos um para o outro (Rob Reiner, 1989), que também é uma clássica comédia, em que Meg Ryan simula um orgasmo num restaurante. Se o amor não fosse cego, estaríamos perdidos.

Publicado em Amor, Recomendados | Marcado com | 3 Comentários

O mais certo das horas incertas

Don Quixote e Sancho Pança, na ilustração de Gustave Doré.

Don Quixote e Sancho Pança, na ilustração de Gustave Doré.

“A amizade é um amor que nunca morre”, disse o poeta Mario Quintana, traduzindo a mais pura verdade. A amizade é diferente do amor, que é tumultuoso, cheio de altos e baixos, de mil expectativas e “frescurites”. A gente não espera encontrar plenitude num amigo ou amiga e raramente há uma separação. E mesmo longe, a sensação é de estar perto. O sentimento da amizade é uma das coisas mais próximas do eterno. Sem ele, a solidão humana seria insuportável. Tem amigos que duram uma vida, outros, uma etapa. Cada um tem seu papel e importância na nossa existência.

Muito já se falou e estudou sobre a amizade. O fato é que cada um sabe quem realmente pode ser considerado seu verdadeiro amigo, o seu “Sancho Pança”, que traz um pouco de equilíbrio e honestidade no meio do caminho. Nem sempre é aquele que nos acompanha em tudo ou que está presente de forma física. Muitas vezes é aquele que entende o nosso coração tão bem, que se emociona com o que acontece com a gente e, principalmente, demonstra isso. É aquele cuja empatia conosco é tanta que nem precisa de muita conversa para entender nosso drama ou alegria. Amigo de verdade precisa de poucas palavras. E julga pouco. É o que presta atenção naquilo que a gente não diz. Que não deixa a gente constrangido. Que dá bronca, mas escolhe uma sala fechada e a hora certa. É o que assiste a um filme ruim conosco, só pelo prazer da nossa companhia.

Cena do filme "Perdidos na Noite (Midnight Cowboy)", 1969.

Cena do filme “Perdidos na Noite (Midnight Cowboy)”, 1969.

É o que pede desculpas de alguma maneira. É o que nos diz “mentiras sinceras” só para não destruir uma ilusão necessária. É o que tem o olhar que nos acalma e as palavras mágicas. É o que se acostuma aos nossos delírios e acaba acreditando neles (isso quando os delírios não são os mesmos). É o que está conosco no mesmo barco furado, na mesma jornada longa. É o que vai fundo em nossa intimidade, sem medo. É o que nos defende, mas nunca à toa. É o que topa uma louca aventura ou uma fuga, mesmo contrariado ou com medo. É o que confia. Que nos admira por alguma coisa. É o claro e o escuro. É aquele que marca a nossa alma. É o que a gente sente falta e com quem a gente se preocupa. É o que estende a mão, mas fica ali para saber se a gente levantou mesmo e não precisa de mais nada. É aquele que, como na música do Roberto Carlos, é ”  (…) sorriso e abraço festivo da minha chegada/Você que me diz as verdades com frases abertas/ amigo você é o mais certo das horas incertas”.

Segue uma listinha de filmes que eu considero ter a amizade como tema central. Para guardar do lado esquerdo do peito.

Butch Cassidy, George Roy Hill, 1969.

Perdidos na Noite, John Schlesinger, 1969.

E.T. – O Extraterrestre,  Steven Spielberg, 1982.

Conta Comigo, Rob Reiner, 1986.

Curtindo a Vida Adoidado, John Hughes, 1986.

Bagdad Café, Percy Adlon, 1987.

Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore, 1988.

Rain Man, Barry Levinson, 1988.

Conduzindo Miss Daisy, Bruce Beresford, 1989.

Thelma & Louise, Ridley Scott, 1991.

O Clube das Desquitadas, Hugh Wilson, 1996.

The Bubble, Eytan Fox, 2003.

Menina de Ouro, Clint Eastwood, 2004.

Antes de Partir, Rob Reiner, 2007.

Ratatouille, Brad Bird, 2007.

Gran Torino, Clint Eastwood, 2008.

Sex and the City - O Filme, Michael Patrick King, 2008.

Sempre ao Seu Lado, Lasse Hallström, 2009.

Mary & Max – Uma Amizade Diferente, Adam Elliot, 2009.

Onde Vivem os Monstros, Spike Jonze, 2009.

Um Conto Chinês, Sebastián Borensztein, 2011.

Ainda nas músicas inspiradas por amigos, deixo vocês com Valerie, de autoria da banda The Zutons, na voz de Amy Winehouse.

Publicado em Amor, Filmes bons, Recomendados | Marcado com | 4 Comentários

Eu podia estar matando, podia estar roubando

Na obra de Caravaggio, Davi segura a cabeça de Golias.

Na obra de Caravaggio, Davi segura a cabeça de Golias.

Mas não. Tô aqui, escrevendo este post. De acordo com as leis dos “Dez Mandamentos Bíblicos” – para quem é católico – “Não matarás” é o quinto mandamento e “Não roubar” é o sétimo. Para as demais religiões muda um pouco a ordem, mas essas duas grandes leis estão lá, junto das outras. Aliás, na Bíblia estão algumas das histórias mais dramáticas sobre homicídios, como a de Davi, filho de Jessé, que matou o gigante Golias.

Matar é contra os princípios morais, sociais e a gente pode ser preso. Mas todo mundo já pensou nisso na vida. Alguns assumem, outros não. O peso na consciência e o conflito interno de alguém que comete um homicídio (não sendo um psicopata, claro), deve ser de matar. Ops, de doer. Mas acho que todo ser humano tem um pouco de Raskólnikov, o personagem de Crime e Castigo, de Dostoiévski . Segundo uma matéria da revista Super Interessante, “no maior estudo realizado sobre fantasias homicidas, 91% dos homens e 84% das mulheres admitiram já ter pensado (em minúcias) como se livrar de outra pessoa. A esmagadora maioria dos 5 mil entrevistados (entre os quais 375 assassinos) confessaram esse fato, o que levou o coordenador da pesquisa, David Buss, chefe do Departamento de Psicologia Evolutiva da Universidade do Texas, a concluir que a capacidade de tirar a vida é uma característica comum a todos os seres humanos, resultado da seleção natural”, vejam só, minha gente. As pessoas matam por dinheiro, amor, ciúmes, vingança, prazer, medo, defesa, guerra, engano e muitas vezes por quase nada. Na prática, eu já matei aula. E aranha marrom. Tô perdoada, né?

Cena do filme "Louca Obsessão", baseado no livro de mesmo nome, de Stephen King.

Cena do filme “Louca Obsessão”, baseado no livro de mesmo nome, de Stephen King.

Roubar também é mais velho que andar pra frente. E como os homicídios, têm muitas variações, tipos, intenções. Assim como o psicopata é o doente dos assassinos, o cleptomaníaco é o doente dos ladrões. Quem não lembra dos vexames da Winona Ryder? Aliás, tem muita gente famosa cleptomaníaca ou que usa essa desculpa. O fato é que quase tudo no mundo dá pra ser roubado. Precisa de cara de pau, coragem, um bom esquema logístico,vocação e competência. Jóias, ideias, pessoas, dinheiro, tempo, pontos, cartas, órgãos vitais, trens, aviões, carros, obras de arte, senhas, beijos, textos, sonhos, comida, nossa, tanta coisa.

Cena do filme "Um dia de Cão", com Al Pacino, 1975.

Cena do filme “Um Dia de Cão”, com Al Pacino, 1975.

Ladrões ousados e assassinos em série acabam ficando famosos. Confira uma lista dos 1o maiores roubos da história e dos maiores assassinos em série que já existiram. A coisa é para o mal, a gente sabe, mas não é pra qualquer um. Há também os ladrões atrapalhados ou que roubam por motivos “nobres” ou passionais como o personagem de Al Pacino em “Um Dia de Cão”, que acaba tendo a compaixão da sociedade. Um filme obrigatório, numa das mais impressionantes atuações do cinema.

Separei alguns filmes que considero muito bons dentro destes temas, excluindo terror, máfia e vingança (que aí já é outro assunto). Antes de matar ou roubar, recomendo que assistam.

“Não matarás”

Psicose, Alfred Hitchcock, 1960.

Pixote, a Lei do Mais Fraco, Hector Babenco, 1981.

Nascido para Matar, Stanley Kubrick, 1987.

Louca Obsessão, Rob Reiner, 1990.

Nikita – Criada para Matar, Luc Besson, 1990.

O Silêncio dos Inocentes, Jonathan Demme, 1991.

Instinto Selvagem, Paul Verhoeven, 1992.

Assassinos por Natureza, Oliver Stone, 1994.

Seven – Os 7 Crimes Capitais, David Fincher, 1995.

Fargo, Ethan Coen e Joel Coen, 1996.

O Livro Secreto de um Jovem Envenenador, Benjamin Ross, 1996.

Monster, Patty Jenkins, 2003.

Dexter, série de TV americana, começou em 2006. (não é filme, eu sei, mas tem o assassino mais lindo e charmoso de todos os tempos).

Zodíaco, David Fincher, 2007.

“Não Roubarás”

Ladrões de Bicicleta, Vittorio De Sica, 1948.

O Grande Golpe, Stanley Kubrick, 1956.

Bonnie and ClydeArthur Penn, 1967.

Golpe de Mestre, George Roy Hill, 1973.

Um Dia de Cão, Sidney Lumet, 1975.

Não Tenho Troco, Bill Murray e Howard Franklin, 1990.

Caçadores de Emoção, Kathryn Bigelow, 1991.

Cães de Aluguel, Quentin Tarantino, 1992 (também poderia estar em “Não Matarás”).

Cova Rasa, Danny Boyle, 1994 (também poderia estar em “Não Matarás”).

Thomas Crown – A Arte do Crime, John McTiernan, 1999.

O Assalto, David Mamet, 2001.

Vida Bandida, Barry Levinson, 2001.

Onze Homens e um Segredo, Steven Soderbergh, 2002.

De qualquer forma, se for para ter um comportamento meio “Psycho Killer”, melhor ficar com este.

Publicado em Recomendados | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Mamilos

"Almoço sobre a relva", de Edouard Manet, 1863.

“Almoço sobre a relva”, de Édouard Manet, 1863.

A arte é como a vida, sempre tem polêmicas. Dependendo da época em que uma obra é apresentada, a polêmica é ainda maior. Estar à frente de seu tempo é sempre difícil, pois as pessoas não estão preparadas para entender as quebras de paradigmas e os “tapas na cara” da sociedade, pelo simples fato de que as pessoas inovadoras apresentam quase sempre conceitos e ideias que não têm base no que já aconteceu, são como “videntes”, antecipam tendências ou criam-nas. Ou simplesmente mostram o que ninguém ainda se deu o direito de ver. É como falar uma besteira no almoço de domingo, em família (quem nunca?). A polêmica começa quando um assunto mexe nas bases, na estrutura das pessoas. Muitas vezes é um tabu ou algo tão frágil que é fácil causar mal estar. Precursores conseguem perceber nos mínimos detalhes do cotidiano e na convivência entre as pessoas o que está além da linha do horizonte, o que mora “fora da caixa”. Édouard Manet, grande pintor francês do século XIX, era um impressionista fora dos padrões e em 1863, no “Salão dos Recusados”, ele expôs a polêmica obra “Almoço sobre a relva”, que foi um escândalo, por apresentar uma mulher nua sentada ao lado de dois homens bem vestidos, numa cena de um piquenique pra lá de inusitado. Se pensarmos bem, até hoje é uma cena polêmica. Na época, foi tachada de imoral. Manet é um dos meus artistas preferidos. Quando vi “Almoço sobre a relva” ao vivo, no Museu do Louvre, em Paris, fiquei em êxtase. Na época ainda era uma estudante de Belas Artes, cheia de pensamentos românticos. Pensei “eles tinham toda a razão, é um estouro”. Manet é considerado por muitos críticos um dos precursores da arte moderna, por ultrapassar o realismo e ter a ousadia de pintar de forma diferente, tanto na técnica quanto no conceito. Não confundam com Monet, que é outro impressionista fantástico, mas não tem nada a ver.

Cena do filme "Lolita", de Kubrick, 1962.

Cena do filme “Lolita”, de Kubrick, 1962.

No cinema também há muitas polêmicas. E quando se trata de filmes, a coisa se torna ainda mais escandalosa e chocante, porque o cinema é mais popular, mais acessível e tem uma narrativa para reforçar o conceito. Filmes polêmicos geralmente caem na mesma vala dos assuntos proibidos de domingo em famílias cristãs: tudo o que é contra a moral e bons costumes, ateísmo, homossexualismo, pecados capitais, o que é contra a natureza humana ou o que a gente nem está preparado para categorizar, de tão diferente que é. Poderia citar aqui centenas de filmes de horror, violência, terror ou de temas sexuais, mas isso seria óbvio demais. Pra mim, filme polêmico é aquele que trata de temas que ultrapassam as linhas da natureza humana ou da vida em sociedade e nos faz pensar nas mudanças que aquele tipo de comportamento ou situação promoveriam, independente de serem boas ou más. Então, neste contexto, recomendo ver um Jesus Cristo bem humano em A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, a violência extrema e esteticamente única de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, o sucesso de bilheteria de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto (que deveria ter sido bem mais polêmico, mas o bom humor de Jorge Amado parece ter encantado as pessoas na época), o novíssimo Ted, de Seth MacFarlane, que mostra um ursinho fofo e politicamente incorreto, que fez até um deputado brasileiro se indignar nas redes sociais (e passar muita vergonha), a reviravolta de uma mulher vítima da maldade em Dogville, de Lars Von Trier, a vingança e o estupro mais absurdo e longo de todos os tempos em Irreversível, de Gaspar Noé  (este eu recomendo fazer um mês de terapia depois), a solidão emocional e o sexo entre dois estranhos em O Último Tango em Paris, de  Bernardo Bertolucci, um casal enlouquecido matando todo mundo em Assassinos por Natureza, de Oliver Stone, um amor imoral e trágico na adaptação do romance homônimo Lolita, de Nabokov, que tem uma versão brilhante de Kubrick e outra mais nova, muito boa também, de Adrian Lyne, a vida de adolescentes sem regras e com muitas drogas em Kids, de Larry Clark, e, pra terminar (não que acabe aqui, mas este post tem que ter um fim), um filme inglês pouco conhecido e comentado, mas muito interessante, que trata da vida de um jovem que envenena a todos que o incomodam em O Livro Secreto de um Jovem Envenenador, de Ross Benjamin.

Quem tem medo de “assuntos proibidos” não aprende nada nessa vida. Se uma coisa é polêmica é porque algum sentido ela faz, vai fazer ainda ou pelo menos servirá de inspiração para artistas, escritores e cineastas, tornando nossa existência mais emocionante. E pra quem não entendeu a ligação do conteúdo com o título deste post, aí vai a explicação (um vídeo famoso no YouTube).

Publicado em Recomendados, sexo | Marcado com | Deixe um comentário