Em tempos de futebol

Cena do documentário "Garrincha, alegria do povo".

Cena do documentário “Garrincha, alegria do povo”.

O documentário “Garrincha, Alegria do Povo” é um filme sobre o futebolista Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, realizado no auge de sua carreira.

Com direção de Joaquim Pedro de Andrade, foi lançado em 1962.

Não entendo nada de futebol, mas vale a pena ver o documentário, que fala sobre um dos maiores ícones do esporte de todos os tempos. Foi o primeiro documentário brasileiro sobre um esportista, com linguagem documental jornalística, com imagens e fotos cedidas por jornais e TV.

Aqui vocês encontram o filme, na íntegra:

 

 

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Casamento atrás da porta

Cena do filme "O Casamento de Muriel".

Cena do filme “O Casamento de Muriel”.

“Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida”. É assim que tudo começa. E como queremos acreditar. E acreditamos. E apostamos. E todo mundo fica feliz.

Não vou ficar aqui falando de sucesso ou fracasso no casamento, até porque tem muito autor de autoajuda fazendo isso. Aliás, nunca vi tanta baboseira sobre o tema no mercado editorial. O que acho curioso é a forma como o casamento virou um objeto de consumo. E também um espetáculo. Eu me casei em uma época que casamento não era algo tão midiático. Bom, também não existia Facebook e outras redes sociais para se exibir e que eu me lembre não tinha tanta parafernália nas festas e igrejas.

Mas quem não se ilude diante do “grande marketing” do casamento e da família? Das campanhas publicitárias cheias de apelos emocionais para termos uma vida de propaganda de margarina com filhos sorridentes de bochechas rosa? E quem não se ilude quando alguém se aproxima e parece ser a pessoa perfeita ou quando se apaixona? Mudam as ideias, mudam as pessoas, as formas de se comunicar, mas o que todo mundo quer mesmo é dormir de conchinha. Hoje em dia, não mais “até que a morte nos separe”, como nossos pais e avós, mas até que se consiga manter um sentimento que esquente o coração (e outras partes do corpo).

Uma vez ouvi uma coisa que ilustra bem o conceito e o dilema de um casamento, a de que há sempre três coisas: a gente, o outro e o casamento. E este último, acho que é a “pessoa” mais difícil de lidar. E talvez o que todo mundo mais deseja. Porque é uma ideia muito bem trabalhada e vendida desde que o mundo é mundo. Não adianta fugir, todo mundo vai querer se casar um dia, de formas convencionais ou não, está na cultura mundial intergaláctica. O casamento é uma “entidade” tão elevada e séria, que às vezes se torna o objetivo maior de várias pessoas, tão grande e perseguido, que pode virar uma obsessão.

É o caso da personagem do filme O Casamento de Muriel (Muriel’s Wedding, 1994, roteiro e direção de P. J. Hogan, Austrália). Muriel (Toni Collette, pra variar, estupenda no papel e foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz), é uma moça desengonçada, acima do peso, fora de moda e fã de ABBA (banda que sempre escuta para aplacar a tristeza), que procura ser feliz em meio a uma família problemática e uma rotina tediosa. Muriel vive em uma pequena cidade da Austrália, tem uma relação conturbada com o pai, que a menospreza, é rejeitada pelas amigas e tem um sonho obsessivo: casar. É o que a faz desviar seus pensamentos e ter um pouco de esperança. Decide então fugir para Sydney com a melhor amiga (Rachel Griffiths, maravilhosa), que também é meio excluída do meio em que vive. Lá, ela encontra o que considera seu príncipe encantado e casa-se com ele, um famoso nadador que se revela um fracasso. E o drama não para por aí. É uma história nada convencional e que também tem momentos engraçados que tratam de amizade, solidão, liberdade e frustração.

Considero um filme triste (e óbvio que foi catalogado como comédia) e um dos mais verdadeiros e tocantes que já vi. Muriel é aquela pessoa ingênua e boa, fora dos padrões que a sociedade impõe e com uma família desestruturada e uma vontade de fugir de tudo o que vive na cidadezinha careta em que nasceu. Muriel é autêntica, espontânea e viva, sem desejos malévolos de vingança. Ela só quer alguém que goste dela.

É também um filme sobre amizade. Uma amizade gigante, divertida, daquelas onde todo mundo deveria buscar refúgio, na qual podemos dizer não às convenções que nos incomodam, daquelas que esperamos ingenuamente encontrar num casamento, que fazem nossas emoções ficar à flor da pele, que nos tiram do tédio e da tristeza, que deixam nossa vidinha mais interessante e rica.

Só que dos amigos a gente sabe bem o que quer e o que vier é lucro. Com os amigos podemos fugir de tudo e se aventurar, como no filmeThelma & Louise. Dos amores, queremos o acordar pela manhã, as mãos dadas na rua, os filhos, a estranha sensação de plenitude, a ilusão de segurança e mais um monte de coisas que nunca ninguém vai conseguir nos dar completamente. E assim segue a vida, porque viver sozinho ninguém quer, por mais que existam um milhão de teorias dizendo que isso não importa. Aliás, daqui a pouco as pessoas vão ficar mais estressadas por tentarem acreditar na ideia de que viver sozinho é bom do que pela pressão de encontrar alguém. O mundo inverteu as cobranças e tudo tá meio confuso mesmo. Porque é difícil conviver com tantos padrões, tantas “teses” sobre felicidade e amor. No fundo eu acho que a melhor tese que já vi sobre o assunto ainda é esta aqui, de Dominguinhos e Gilberto Gil.

E aquela velha brincadeira de infância – que hoje acho que ninguém mais brinca – serve também para ilustrar um pouco a vida a dois e o desejo de se casar: “Você quer esse? Nããããããããão. E Esse? nãããããããããããõ. E Esse? Siiiiiiiiiiiiiiiiiiim. E o que você quer dele?”. Ai que pergunta difícil!

Deixo vocês com a trilha sonora do filme, em uma das melhores cenas.

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Dentro d’água

Não sei que filme é, nunca vi e não sei nada sobre ele.

Só sei que essa cena é linda e é sempre bom ver a Ellen Page.

Adoro cenas com piscinas, tenho uma coleção em minha mente. Pena que a maioria é spoiler. Aí o pessoal vai querer me afogar.

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A verdade somente a verdade?

"La trahison des images", pintura de René Magritte, 1829.

“La trahison des images”, pintura de René Magritte, 1828-1829 (a frase significa “isto não é um cachimbo”).

“Temos a arte para não morrer da verdade” disse o filósofo Friedrich Nietzsche. É, o mundo seria impossível sem a arte porque às vezes a vida é boring mesmo. Mas a realidade tem seu lado encantador e contém muita ficção. Sim. A vida é sempre cheia de tantos detalhes, emoções, dores, choques, viagens na maionese, devaneios e mentiras, e segundo os psicólogos, projeções. Quem disse que o que pensamos ou vemos não é pura ficção inventada por nós em algum momento? Sem contar que às vezes são tantas emoções que a gente parece estar mesmo dentro de um filme. Se observarmos o cotidiano com olhar atento e uma dose de romantismo, principalmente nas ruas onde estão os verdadeiros “filmes da vida real”, veremos cenas interessantes todos os dias. E de graça.

A verdade é uma questão filosófica e a grande verdade mesmo é que ela não existe. Não adianta procurarmos e insistirmos nela porque como dizia Einstein, “tudo é relativo” (ô frase irritante). Para mim, a nuvem é um elefante e para o outro é um coelho. O que existe mesmo de palpável é o nosso cotidiano, a labuta de todo dia, as gargalhadas, o sofrimento da guerra ou da doença, as conversas sinceras, o abraço de um filho ou o beijo apaixonado. Existe a vida vivida. O resto é burocracia. A verdade é uma espécie de caleidoscópio, onde o que vemos é uma coisa, o que os outros veem é outra e o que vemos sobre o que os outros veem é outra ainda. A cada movimento, por mais sutil que seja, uma pedrinha colorida sempre muda de lugar no espelho.

Crescemos com a cultura da ficção e a consumimos como um doce. Mas há um gênero de filmes muito interessante e que cada vez mais ocupa espaço no cinema: o documentário. Tem como premissa a exploração da realidade, mas sendo uma representação subjetiva da mesma, cheio de recortes, nem sempre mostra a verdade como ela é. Há tantas mídias, formas e procedimentos que é complicado dizer que hoje o documentário se propõe somente a “contar a verdade”. Mas ela está no seu DNA. Se pensarmos bem, o cinema nasceu com uma forma de documentário, com o filme dos irmãos Lumiére, considerado o primeiro da história, o famoso A Chegada do Trem na Estação (1895), onde registrou-se o primeiro trem com câmera de cinema. Foi um fato verídico, não uma ficção.

No Brasil, as primeiras exibições de documentários aconteceram no final do século 19, com pequenas produções que mostravam paisagens regionais. Depois disso passaram-se cerca de 20 anos marcados por filmes etnográficos, a maioria realizados por antropólogos. Até que o documentário se abriu para outras possibilidades e formas.

Cartaz do filme "Cabra marcado para Morrer", de Eduardo Coutinho.

Cartaz do filme “Cabra marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho.

Um cara que manda muito bem neste gênero no Brasil é Eduardo Coutinho. Realizou um dos principais filmes da história do documentário nacional: Cabra Marcado Para Morrer, sobre o assassinato do líder paraibano João Pedro Teixeira, ocorrido em 1962. Devido ao golpe militar, as filmagens foram interrompidas em 1964 e parte da equipe foi presa, retomando o trabalho somente 17 anos depois. Acho que a história desta filmagem daria um belo documentário. Coutinho também fez outros filmes bons como Santo ForteEdifício Master, Jogo de Cena e Canções. Seus filmes são marcados por um estilo que busca a maior naturalidade possível de seus entrevistados. Mas em Jogo de Cena, onde as personagens são atrizes – algumas famosas e outras não -, ele procurou romper fronteiras entre documentário e ficção. Há muitos outros cineastas que produziram e produzem ótimos documentários no Brasil. Como Marcelo Masagão, Jorge Furtado e Marcos Prado, por exemplo. Acredito que não existam mais regras ou barreiras para alguém que faz ficção produzir um documentário com qualidade e vice-versa. Tudo se mistura no cinema.

Pra quem gosta ou quer gostar deste gênero, recomendo acompanhar o Festival Internacional É Tudo Verdade, que existe há 18 anos no Brasil e é um dos maiores festivais de documentários do mundo.

Uma das melhores coisas de assistir a um filme documentário é saber que se trata de algo que realmente aconteceu. É aquela sensação de “gente, mas como pode??”. Mexe muito com as nossas dúvidas, crenças e até mesmo preconceitos sobre um tema. É o reality show do cinema, só que com licenças poéticas. Algumas histórias e seus personagens são tão inacreditáveis que nem parecem ter acontecido de verdade. Como em Estamira (2004), de Marcos Prado ou Searching for Sugar Man (ganhador do Oscar de 2012), dois de meus preferidosOutras histórias são contadas de uma forma tão original, ousada e criativa, que surpreendem, mesmo não sendo tão relevantes. Documentos, fotos, depoimentos, paisagens, tudo pode ser usado para contar uma história. Em 2010 eu fiz um curso e acabei dirigindo um documentário amador, intitulado Bom dia, Boa Sorte. É um curta que fala sobre as ilusões criadas quando se vai à cartomantes e foi construído com depoimentos. Foi uma experiência e tanto, porque a gente descobre que tem um olhar limitado sobre um assunto antes de mergulhar fundo nele. A verdade é encantadora. Fora o prazer das surpresas que reservam as pessoas e situações.

Cena do filme "Estamira", de Marcos Prado.

Cena do filme “Estamira”, de Marcos Prado.

Quem faz documentários sempre conta com o acaso, um dos ingredientes mais importantes do processo, na minha opinião, porque os olhos de um bom cineasta podem se aproveitar disso para revelar coisas que nem mesmo as pessoas envolvidas na história percebem, trazendo aspectos que podem tornar a história ainda mais interessante. É o olhar do outro sobre uma realidade.

Segue uma lista pequena (porque há vários outros bons) de documentários que valem o nosso tempo. É história que não acaba mais. No fim das contas, cada um vê a verdade que quer, dentro do seu próprio caleidoscópio.

(Muitos estão disponíveis em sua versão completa, no YouTube).

Cabra Marcado para Morrer (1985), de Eduardo Coutinho.

Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado.

Arquitetura da Destruição (1989), de Peter Cohen.

Nós que aqui estamos por vós esperamos (1999), de Marcelo Masagão.

Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho.

Tiros em Columbine (2002), de Michael Moore.

Motoboys Vida Loca (2002), de Caíto Ortiz.

The Corporation (2003), de Mark Achbar e Jennifer Abbott.

Estamira (2004), de Marcos Prado.

O Cárcere e a Rua (2004), de  Liliana Sulzbach.

A Marcha dos Pinguins (2004), de  Luc Jacquet.

Super Size Me (2004), de Morgan Spurlock.

Entreatos (2004), de  João Moreira Salles.

Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei (2007), de Cláudio Manoel.

SiCKO (2007), de Michael Moore.

Man on Wire (O Equilibrista, 2008), de James Marsh.

Food, Inc. (2008), de  Robert Kenner.

Recife Frio (falso documentário, 2009), de Kleber Mendonça Filho.

Gretchen Filme Estrada (2010), de Eliane Brum e Paschoal Samora.

Iván – De Volta para o Passado (2011), de Guto Pasko.

Janela da Alma (2011), de  João Jardim e Walter Carvalho.

Quebrando o Tabu (2011)  , de Fernando Grostein Andrade.

Searching for Sugar Man (2012), de Malik Bendjelloul.

Raul -O Início, o Fim e o Meio (2012), de Walter Carvalho.

Elena (2012), de  Petra Costa.

Pátio (2013), de Aly Muritiba.

Termino aqui com o depoimento sincero de Alessandra, de Edifício Master, do mestre Eduardo Coutinho.

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Cinema Congelado – Quem te irrita, te conquista.

Cena do filme "It Happened One Night", 1934.

Cena do filme “It Happened One Night”, 1934.

It Happened One Night (Aconteceu naquela noite), de Frank Capra, 1934. Com  Clark Gable e Claudette Colbert,  foi o primeiro filme a conquistar as cinco categorias mais importantes do Oscar: filme, diretor, ator, atriz e roteiro. Simplesmente genial, com cenas e diálogos inovadores para a época. Lacan dizia que “todo amor é recíproco, mesmo quando não é correspondido”. Há boa dose de teimosia nesta frase. Digo o mesmo sobre este filme. ;-)

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Please don’t let me be misunderstood

Cena do duelo entre Uma Thurman e Lucy Liu: mais que perfeita.

Cena do duelo entre Uma Thurman e Lucy Liu: mais que perfeita.

Linda cena de Kill Bill: Vol. 1 (2003), de Quentin Tarantino.

Uma obra de arte dentro de outra obra de arte.

Spoiler si, pero no mucho.

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Cinema congelado – Cuidado com o que você deseja

The Graduate (A Primeira Noite de um Homem), 1967. Um filme de Mike Nichols.

Um clássico. 

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