Os “Budas” também amam

Neste belo filme de 2001, Samsara (Dir. Nalin Pan), temos a vida como ela é, mesmo entre monges budistas. Uma espécie de releitura da vida de Buda nos dias atuais, o filme se  passa na bela paisagem do Ladakh, nos Himalaias indianos e com imagens magníficas,  conta a história de Tashi, um monge tibetano que resolve experimentar uma vida de “homem comum”, para poder viver um grande amor. Ele enfrenta um grande dilema existencial e o tempo todo – assim como todos os pobres mortais – é desafiado pela vida.

Filme independente, foi vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Moscou e Júri Popular em Melbourne.

Prestem atenção nas coisas ditas sutilmente nos silêncios do monastério, nos desejos mundanos de Tashi, nos seus olhares, nos rostos e nas palavras dos monges mais velhos, nas expressões e brincadeiras das crianças que se tornarão monges, nos costumes do povo, nas belas cenas de sexo (milagrosamente sem clichês e com um timing perfeito) e no discurso final da esposa de Tashi. Arrasou. Fiquei fã dessa mulher. Nirvana é realmente para poucos, amar e sofrer é para todo mundo.

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Os filmes de uma vida – parte II

Cena do filme "Transamerica"

Olhando novamente a minha lista de filmes locados na Cartoon Vídeo (no último post esqueci de dizer, mas ela é de jan de 2006 até julho de 2011, antes disso, eu frequentava outra locadora), eis que paro no dia 10/02/2007. Um dia após o aniversário da minha mãe querida. Dois filmes peguei neste dia: Coisas de Família (Fathers and Sons, EUA, 2005), do qual eu não lembro de nada, nem assistindo ao trailer de novo. Com certeza é um filme sem importância, os atores são desconhecidos e sabe lá Deus o motivo por qual eu o assisti (ou não o assisti?). Outro filme deste mesmo dia e que valeu a pena cada minuto da minha vida (já vi 4 vezes) é o fantástico Transamerica (EUA, 2005, dir. Duncan Tucker). Com a estupenda interpretação da atriz Felicity Huffman (da famosa série Desperate Housewives, ela foi indicada ao Oscar e ganhou um Globo de Ouro por Transamerica), que faz o papel de Bree, um transexual decidido a fazer uma operação de troca de sexo. Prestes a realizar sua cirurgia, ele descobre que Toby (Kevin Zegers), um jovem rebelde e metido em encrencas de todo o tipo, preso em Nova York, é seu filho, fruto de um relacionamento antigo com uma moça que já faleceu. Mesmo chocada, resolve ir ao encontro dele, fingindo ser uma missionária cristã que tenta ajudá-lo. É aí que começa uma viagem em que os dois vão se descobrir e enfrentar seus fantasmas. Quer coisa mais louca que descobrir que tem um filho crescido,  sendo que você é transexual? Ou descobrir que seu pai – que você nunca viu – é a missionária que te aconselha mas que, na verdade, não é missionária e nem mulher? Esse filme é um nó. É um buraco com várias feridas. Um tapa na cara dos pré-conceitos e nos faz refletir sobre o conceito de família. Além disso, é formidável na maneira como lida com o tema da identidade, da busca pelo “eu”, que independente se ser hetero ou homo ou trans ou seja lá o que for, é algo que todos nós buscamos (ou tentamos) a vida toda. Esse filme merece ser inserido na lista dos filmes em que chorei. Porque eu chorei bastante, apesar de ser um filme com humor ácido. Chorei na cena em que ela chora, desmorona. Senti-me comovida com sua coragem e bondade. Bree é uma personagem e tanto. Muitos pais heteros não fariam por seus filhos o que ela fez pelo dela. Muitos não fariam por si mesmos o que ela fez por ela. Muitas mulheres não são tão femininas e gentis como ela.  Mesmo tendo que lutar com uma dor tão forte e um dilema tão profundo como o da troca de sexo, enfrentar todos os preconceitos da sociedade, tomar um milhão de hormônios para a voz, os seios e os pêlos parecerem cor-de-rosa, usar um quilo de maquiagem num rosto de poros masculinos, esconder o que é incômodo e indesejado, ainda teve a elegância certa e justa para enfrentar tudo e todos (inclusive sua família louca e, de certa forma, comovente) para ajudar o filho loser e perdido. Os bons valores de Bree contrastam o tempo todo com os (não) valores do filho e de uma sociedade em que todos são imperfeitos. Uma desperate housewive de fazer inveja a qualquer dona de casa tradicional e medrosa.

Engraçado, pois ambos os filmes locados neste dia tratam de assuntos de família. Não importa a nacionalidade, classe social ou opção sexual, todas se assemelham em uma coisa: filhos trazem problemas e alegrias e mães e pais são incansáveis e falíveis. O que importa é saber lidar com o passado e ter a coragem para seguir em frente. Heteros ou homos, isso tanto faz.

Assista sem preconceituosos por perto:

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Os filmes de uma vida – parte I

Cena do filme "Quem tem medo de Virginia Woolf?"

Este fim de semana fui à minha habitual fantástica videolocadora Cartoon Vídeo, que tem atendentes fantásticos e um acervo fantástico. Aliás, deve ser a única grande videolocadora que ainda sobrevive por aqui. Há uns dias, tive a brilhante ideia de pedir ao atendente uma lista de todos os filmes que já peguei lá, desde o primeiro dia. Pois bem, a lista saiu, como numa passe de mágica, num papel amarelo desses de bobina e achei que nunca mais pararia de imprimir. Foi mágico. O rapazinho – muito gentil – até me perguntou “você queria que fosse em ordem alfabética?”. Não, imagina que eu iria exigir tanto assim e já estava no meio da impressão. 615 filmes. Agora tenho que ir na outra locadora que eu frequentava antes, pra pedir o restante. Mas lá os atendentes não são tão simpáticos e gentis. Vai ser um problema. E se eu pagar? E tem também os filmes baixados da web (não por mim, pelos meus amigos, claro), os filmes vistos no cinema, na faculdade, cursos, etc. Tenho colocado um post-it nos filmes que já assisti do livro “1001 filmes para ver antes de morrer”. Isso também ajuda a gente a ter uma ideia do que já viu.

Saí toda feliz da locadora com o meu “rolinho” na mão e dei uma olhada rápida. Está organizado por datas. É meio assustador. Passou um filme da minha vida na cabeça. Aliás, uma amiga disse que isso daria um filme. Posso até lembrar de algumas coisas que aconteceram em determinada época, só de ler a lista. Aí vou fazendo associações com o que estava me acontecendo naquele ano, naquele mês. Por exemplo, em determinadas semanas, peguei muito Woody Allen, quando em outras, peguei só dramas ou documentários. Algumas semanas são engraçadas, em que peguei só filmes muito bons e meu marido só pegou porcaria, ahahahahah. Dá pra ver nitidamente que duas pessoas dividem a conta da videolocadora. Bom, um homem não pode ser perfeito (consertei bem, hein?).

Vejam que coisa interessante: no dia 23/01/10, loquei “Jean Charles” e também “Quem tem medo de Virginia Woolf”. Nossa, nada a ver um com o outro. Ou há uma conexão, mesmo inconsciente? Dois grandes filmes, adorei os dois. Claro, não dá para comparar, pois um deles é um clássico de 1966, com a diva Elizabeth Taylor e interpretação e textos de cair o queixo. Ai, que vontade de escrever sobre eles.

Mas agora tô morrendo de sono… Voltarei em breve para falar mais dessa “lista reveladora”. E para lembrar de alguns filmes que merecem estar nas listas de todas as pessoas que amam cinema. Inté. ;-)

Abraços,

Adri

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Desculpas esfarrapadas, um assalto tupiniquim e um céu azul

Cena de "O Céu de Suely"

Pessoal, desculpem-me por ficar dias sem escrever, mas está difícil achar tempo. Sei que quem se propõe a ter um blog deve ter consciência de que é preciso postar coisas com frequência. Mas fiquei afastada por bons motivos, novos projetos e ajudando a quem precisa. Desculpinhas à parte, agora volto com uma promessa: vou manter a frequência, nem que seja para postar “galera, tal filme é uma merda” (e isso tem aos montes hoje em dia). Aliás, por falar em filme ruim, não percam tempo assistindo a Assalto ao Banco Central (só fui porque ganhei convite para a pré-estreia e porque a companhia era boa). O filme é ruim pra caralho e bem novelesco, conseguiram deixar até a fantástica Hermila Guedes estranhamente artificial (embora linda). Só as cenas de sexo são boazinhas (O Marcos Paulo deve mandar bem nisso, não é à toa que “pega todas”, com todo respeito, sei que ele está doente, mas de certa forma, é um elogio). E é o assalto mais tupiniquim do planeta. Vergolha alheia. Achei que a história era de um assalto de sucesso, ou seja, que os “bandidos” todos eram uns caras fodas, tipo “Onze homens e um segredo”. Mas claro, estamos no Brasil. Nem charme eles têm. Fiquei imaginando esse filme dirigido e escrito por outros cineastas… Por que como, meu Deus, com aquele elenco, conseguiram estragar tudo? Ninguém “colou” no papel, só o Milhem Cortaz salvou um pouco o filme, mais pela presença marcante de sempre do que pela força do personagem. E também o menino que fez o filme Central do Brasil, Vinícius de Oliveira (hoje, um homem), que deu um toque cômico ao filme fazendo um gay evangélico muito, mas muito atrapalhado e medroso (isso foi impagável). E que pena, a Giulia Gam, estava totalmente inexpressiva como policial investigadora. E lésbica. Aliás, alguém poderia me explicar por que esse detalhe foi colocado na trama?? Sim, ok, para mostrar a atual mulher linda e loira do Marcos Paulo que aparece por dois segundos, mas o que isso agregou ao enredo? Mas bom, vamos esquecer coisa ruim e comemorar porque hoje é sexta-feira.

Deixo vocês com um filme brasileiro de qualidade e com a mesma Hermila Guedes de Assalto ao Banco Central, só que numa atuação imperdível e comovente. O Ceú de Suely, de 2006, dirigido por Karim Aïnouz e com o excelente ator João Miguel, é um dos meus filmes brasileiros preferidos. Vale a pena também ver os extras e a preparação do elenco, que foi incrível. Claro, a trilha original é linda. História triste de Suely, moça que volta de São Paulo à sua cidade natal com o filho no colo e fica à espera de um marido que nunca volta. Quer a todo custo fugir da vida, fugir de um lugar que nunca foi seu, acaba rifando seu próprio corpo para conseguir dinheiro para comprar a passagem que vai levar-lhe a uma possível vida nova. Ilusão e perseverança exemplar num árido e cruel lugar do interior do Ceará. É uma história de busca pela reinvenção de si mesmo, por algo que nos torna livres, seja lá do que for. Com determinação, coragem e sensualidade extremas, Suely me acompanhou por dias, semanas, impregnada no céu da minha alma. Ótimo lugar para pessoas como ela.

 

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Um Bom Filme é como um Bom Vinho

“Boa é a vida, mas melhor é o vinho. O amor é bom, mas é melhor o sono.” Fernando Pessoa

 “Um dos melhores orgasmos que tive na vida foi com uma garrafa de vinho”. Não, esta não é uma citação minha. Poderia ser, mas é da minha prima Gil Vesolli, sommelier renomada, ultracriativa, revolucionária, bem humorada, que sofre de sincericídio (essa é ótima), bonita, sexy e dona do blog quasesommeliere.blogspot.com. Ela é ótima. Mora em Aracaju. Mas antes morava em B.H. E antes em Palmas/PR (cidade muito pequena para uma mente tão grande). Pedi para que ela me descrevesse exatamente como é beber um bom vinho, para que eu pudesse fazer um paralelo com cinema. Não sei por que, mas acho que ambas as experiências se parecem. Lendo seu texto, que vocês podem conferir aqui na íntegra , veio à mente os melhores filmes que já vi, e como ela fala do vinho Amarone Masi Costasera 2006, que escolheu para este texto, um bom filme também causa arrepios e sensações indescritíveis. Todo filme tem um gosto, uma cor, um aroma.

Ela diz que antes de dar uma aula sobre vinhos, abre as garrafas com antecedência de algumas horas. Como parte do ritual de cinéfilos, também é comum pegar o filme na locadora e ler cuidadosamente a sinopse, entrar na internet para ler sobre ele, “preparar o sofá”, desligar o telefone…tudo antes de apertar o play. Só não é tão chique.

Ela diz que muitos vinhos já não a surpreendem, que abre-os e prova-os por pura obrigação. O mesmo acontece com certos filmes, que a gente acaba assistindo porque todo mundo assistiu ou para ter uma opinião formada sobre ele, ou porque é uma vergonha não ter assistido (o que dizer no bar, no café ou na mesa redonda quando te perguntarem???). Aí ela continua: “Mas nesse dia tudo foi diferente. Ansiei pelo vinho, que nunca havia provado e ainda estava na dúvida em relação à harmonização. Alinhei os vinhos no balcão da copa do restaurante, escrevi seus nomes, sobrenomes e datas de nascimento no meu bloco de anotações. Primeiro vinho na taça, provei, anotei as impressões, parti para o segundo e depois para Ele.” Notem que “Ele” está com letra maiúscula, pois é uma santidade. A gente faz isso também com filmes. Não sei vocês, mas se pego cinco filmes para ver, por exemplo, deixo o melhor por último. Quero ficar com a sensação causada por ele, quero lembrar só dele e de nenhum outro mais. Quero que ele aplaque qualquer sensação de descontentamento dos anteriores. Para os amantes de cinema, não só o filme em si é uma santidade, mas o diretor também, quando é bom. É uma espécie de devoção, de fidelidade.

Agora, a prova: “Logo ao colocá-lo na taça seus aromas partiram em fuga até meu nariz e corei feito um tomate. Levei a taça ao nariz e meu coração ficou acelerado, faltou ar, as pernas tremeram e gemi. Olhei para o lado como quem é pega em flagrante. Umcopeiro com olhos de surpresa virou-se espantado. Mais do que depressa, agarrei a taça, a garrafa e corri para um lugar mais reservado. Girei o vinho negro e encorpado, e mais aromas surgiram. La petite mort! Ao ser levado à boca, desejei a eternidade fixada naquele instante. Perfeição, apenas isso. O vinho era másculo, carnudo, com sabores que se sobrepunham, confundiam, marcavam como unha na carne. Ao mesmo tempo ele era reconfortante, elegante, macio”, meu Deus, que inveja! Agora ficou difícil competir com todas essas sensações inebriantes. Mas vou tentar. Quando se começa a assistir a um bom filme, a um filme “Amarone Masi Costasera”, a gente sai da vida real. Eu, pelo menos, assumo outro papel, e dependendo das cenas e do enredo, também começo a corar ou empalidecer. Não há a figura do copeiro, mas há as figuras da casa em que se está (marido, amigos, pai, mãe, irmãos, cachorros, gatos) que poderiam evaporar naquele momento que não faria a mínima diferença. É cruel, eu sei, mas é verdade. Quando vejo um bom filme, quero paz. Quero intimidade com ele. Como o copeiro, as pessoas também me olham com olhos de surpresa, porque não economizo expressões corporais. A almofada no colo, sofre. Assim como os aromas, que vão surgindo na taça, as emoções começam a aparecer no coração. Bem fortes, hiperativas, insistentes. Quando percebo o conflito do personagem, é como se o filme se abrisse para mim e exalasse seu aroma. Quando assisti a filmes dos meus diretores preferidos, como David Lynch, Michael Haneke, Lars Von Trier, Ingmar Bergman, François Truffaut, Wim Wenders, Eduardo Coutinho e muitos outros que aqui não cabem, eu me senti assim. É como uma abertura em nosso pequeno mundo, uma folha rasgada, um buraco de fechadura que queremos olhar. Como o vinho, desejei sim parar o tempo. Chorar até acabar as lágrimas ou rir até morrer. Ou simplesmente pensar. Na garganta, o nó. Na mente, é como uma dose de álcool. Em cinema é difícil chegar à perfeição. Um filme não tem um barril de madeira para passar um tempo ou não depende da terra e das chuvas. Mas alguns são quase perfeitos. E os sentimentos que provocam, muitas vezes dúbios, são de matar. Alguns são como navalhas, outros, como algodão doce. E ela finaliza: “Foi difícil abandonar a garrafa e voltar à rotina de vinhos normais, comuns ou tediosos”, sim prima, é difícil se libertar dos personagens, da trilha, das melhores cenas. Elas acompanham você por dias. Ficam batendo à porta do seu coração, querendo uma prorrogação, implorando para não serem esquecidas. Aí, depois de um filme emotivo e maravilhoso, os outros filmes parecem ficar no limbo. E é tão importante que eles existam, os tediosos, para que a gente nunca esqueça do corpo e da cor dos especiais, que tingem nossas vidas. Santé!

Para ilustrar, uma sugestão bem encorpada. “Paris,Texas”, de Wim Wenders. Este é um dos melhores filmes da minha “adega”.

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Das coisas que não vi

Pintura de Mark Rothko

Escrever sobre o que a gente conhece é relativamente fácil. Não falo sobre escrever bem, é claro, que é para poucos e eu estou aprendendo. Mas o reino conhecido torna-se monótono. E é aí que Buda sai para ver o novo e isso não significa ver coisas bonitas e suaves. Escrever sobre o que não se conhece deve ser algo interessante. Então, vou citar alguns filmes que não vi. E falar de coisas que não vivi. Um exercício às cegas, um chute bem dado. A gente nunca viu ou nunca fez algo porque tem outras prioridades, ou porque tem medo, ou porque não interessa, ou porque os pais não deixaram ou porque é burro.

Uma coisa que eu nunca vivi é um perigo radical, como esportes radicais. Nunca pulei de body jump, nem de paraquedas e nunca subi montanhas. A única coisa que fiz foi mergulhar no mar, com aparelhos para respirar. Mas disso eu não tenho medo, pois aí é profundidade e a gente sempre vai com um par (e é muito azar se os dois aparelhos falharem). Na verdade, eu só tenho medo de altura. E de aranha marrom. E de escorpião. E da morte dos outros.

Outra coisa que nunca fiz foi ir a um terreiro. Umbanda, Candomblé, seja lá o que for. Não entendo nada disso. Tenho uma amiga umbandista que um dia vai me levar. Ela é o máximo. Pura sabedoria. Nunca fui à Espanha, nem à Grécia. Nunca dei um tapa em alguém, mesmo nos momentos de raiva (dei, mas bem fraquinho). Nunca “fiz barraco”, briguei na rua ou levantei a voz com estranhos, só com os que amo. É mais fácil brigar com quem a gente ama. A gente é o que é e depois tudo volta ao normal. Com os estranhos não, a gente perde tudo. Nunca fiz um cruzeiro. Nunca dei uma festa de arromba, mas já fui a algumas. Nunca dirigi moto. Nunca vi ao vivo uma pintura de Mark Rothko. Nunca li Schopenhauer. Nunca morri. Nem quero.

Divido com vocês uma pequena lista (tem muitos, mas escolhi só alguns) de filmes que ainda não vi e quero muito ver. Tem um critério aí, não sei qual. Não posso dizer se são bons, e isso é ótimo.

Se alguém quiser me contar algo sobre eles, vou adorar.

4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu.

Aconteceu Naquela Noite, de Frank Capra.

As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang.

Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan.

Lola, de Rainer Werner Fassbinder.

Faça a coisa certa, de Spike Lee.

O Homem que Virou Suco, de João Batista de Andrade.

Zelig, de Woody Allen.

Drei, de Tom Tykwer.

Família, de Fernando León de Aranoa.

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A Memória do Amor

Cena de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças

“Despertar o amor em uma pessoa sem poder amá-la é covardia”, certa vez me escreveu um garoto precocemente maduro que era apaixonado por mim na pequena adolescência. Uma letra bonita ele tinha. Nunca me esqueci disso. Na época não entendia quase nada da vida e não compreendia a tal revolta dele em relação a mim.

Na minha cabeça, eu não havia despertado nada, pois o tratava normalmente, como um bom amigo. Ia à sua casa, brincávamos, jogávamos cartas e nossas conversas tinham a intimidade e espontaneidade de dois irmãos.  Ele não me deixou ler na hora, “leia só quando chegar em casa”. Nunca imaginei que ele poderia se apaixonar por mim.

Mas o coração das pessoas é estranho, elas alimentam sentimentos profundos e intensos. Algumas conseguem ser transparentes como água, outras, menos óbvias e mais “perigosas”, te escrevem mensagens num pedaço de papel depois de se alimentarem com ilusões cuidadosamente construídas. A culpa veio na hora, a compreensão viria mais tarde.

Se na época eu tivesse como fazer algo, queria “apagar-me” da mente do garoto, como uma máquina que o fizesse esquecer de mim, como se eu nunca tivesse existido. Isso é o sonho de muita gente para esquecer um amor não correspondido. Algo como no filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind , dir. Michel Gondry, EUA, 2004), em que Joel (Jim Carrey) contrata uma “empresa” para se submeter a uma sessão com uma “máquina” que apaga de seu cérebro todas as lembranças de sua ex-namorada Clementine (Kate Winslet, linda e ruiva). Visualmente fantástico e trágico de um modo muito especial (com Jim Carrey um drama não é um drama comum), vale a pena ser visto.  É a luta contra a memória, na qual o amor é o maior fardo. Recomendo este filme para todos os que desejam esquecer algo, se lá o que for. É um filme de amor original e inteligente. Claro, a trilha tem uma versão linda de “Everybody’s Gotta Learn Sometimes”, de deixar qualquer um mais apaixonado ainda. Ou na fossa total.

"Auto-Retrato com a Orelha Cortada", de Vincent Van Gogh

Se Vincent van Gogh tivesse uma máquina dessas na sua época, talvez teria evitado pelo menos uma das suas tentativas de suicídio, que além de ter sido causada por uma profunda depressão, algumas teses defendem que pode ter sido por amor. Nem os grandes mestres escapam.

Hoje, depois de passados mil anos do episódio do bilhete (aconteceu na década de 80), vejo que foi covardia mesmo com meu amigo apaixonado. Não tive culpa, mas foi falta de percepção. Se o observasse com mais cuidado, teria visto algum brilho a mais em seus olhos ou uma atenção enorme a tudo o que eu dizia. Teria percebido que muitas críticas infantis, olhares de raiva ou desprezo eram, na verdade, o mais puro amor. A juventude é burra.  A maturidade é nostálgica. So sorry.

Para esquecer um amor, assista aqui ao trailer do filme.

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